
Quem via tantos homens se acotovelando nos pregões viva-voz do mercado financeiro brasileiro – só na antiga Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) eram cerca de 800 operadores –, mal podia imaginar que muitas das ordens de compra e venda dadas pelo telefone vinham de mulheres, do outro lado da linha, acomodadas em confortáveis escritórios.
Mesmo que as cores femininas tenham aparecido pouco nos holofotes do mercado financeiro, elas ganham cada vez mais força nos bastidores das operações. O processo de popularização do mercado de capitais no Brasil, por exemplo, foi liderado pelas mulheres.
Pioneirismo
Monica Saccarelli foi dessas pioneiras no mercado financeiro. Formada em marketing, ela viajou com o Bovmóvel, o carro promocional da Bolsa de Valores de São Paulo (BM&FBovespa), a diversos lugares do País para divulgar a participação da pessoa física no mercado financeiro. Monica foi estudar nos Estados Unidos, voltou ao Brasil e dedicou-se ao desenvolvimento do home broker de uma corretora de valores, em 2005.
"Muitos homens nem imaginam que havia uma mulher por trás do desenvolvimento daquele projeto, e que hoje é uma que chefia a área de home broker", ela brinca. "Nunca sofri preconceito, pois acho que esse tipo de reação tem muito a ver com o posicionamento de cada profissional." Na corretora de valores onde trabalha, a Link, Monica participou da criação da área para pessoa física, assim como do setor de home broker – hoje o 13° do ranking da BM&FBovespa. Ela é responsável pelos canais de mesa, home broker e escritórios no interior do estado.
"Passo o dia em reuniões, falando ao telefone, gerindo pessoas, gerando ideias e acalmando ânimos", ela conta. Monica chefia, direta e indiretamente, 70 profissionais. "A maior dificuldade da gestão é pensar na estratégia e controlar as expectativas. Administramos os investimentos de outras pessoas, homens em sua maioria. Em tempos de crise, sabemos que nossos clientes podem estar perdendo dinheiro e é preciso calma para lidar com a situação."
Na Link, outros cargos estratégicos são ocupados por mulheres, como a direção das áreas de Wealth Management e Recursos Humanos. "Quando comecei na corretora, as mulheres eram pouquíssimas. Hoje, somos 26% dos 280 funcionários daqui", contou.
Participação em alta
A cada dia, a força do batom ocupa mais postos no mercado financeiro. Em 2002, 19,4% dos profissionais de investimentos certificados eram do sexo feminino, de acordo com dados da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec). Esse percentual subiu para 22% em 2004, com o rápido crescimento e popularização do mercado financeiro. Em 2005, 2006 e 2007, as mulheres representaram, respectivamente, 15,2%, 14,6% e 20,3% dos profissionais da área.
A crise financeira pode ter segurado um pouco a participação feminina, que, na época, caiu para 19,7% e, no ano seguinte, para 15,9%. Mas esses índices já começam a se recuperar em 2010, com proporção de 15 tailleurs em instituições financeiras para cada 85 gravatas.
Postos-chave
Em grandes organizações do setor, mulheres também ocupam postos-chave – a começar pela BM&FBovespa, que tem seis diretoras-executivas, entre elas a de Clearings, Depositária e de Risco, Amarílis Prado Sardenberg. Ela ingressou na bolsa em 1989 e está na Companhia Brasileira de Liquidação e Custória (CBLC) desde a sua criação, em 1997, onde é diretora de operações.
A diretora-executiva de Produtos da BM&FBovespa, Marta Alves, foi diretora-gerente-sênior do Itaú, responsável pela mesa de tesouraria no Brasil e exterior, e atuou no ING Bank como Head of Financial Markets e na BHB Investimentos como diretora financeira. Vale lembrar que atualmente toda a gerência de comunicação da bolsa é cor-de-rosa.
Na Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entidade que regula o setor de investimentos, quem dá a palavra final é a presidente do colegiado, Maria Helena dos Santos. Os profissionais do ramo sempre a vêem em mesas e eventos rodeada de empresários, executivos e autoridades masculinas do setor.
A cadeira da presidência da Apimec nacional é ocupada, pela primeira vez, por uma mulher, Lucy Sousa. "Não acho que fui escolhida por ser homem ou mulher, mas pelo trabalho que fiz na associação. Sempre estive envolvida com a Apimec", ela contou. "Fui assumindo cargos cada vez mais altos, até chegar à presidência. Nossa geração, que entrou no mercado de trabalho nos anos 1980, soube se impor em igualdade profissional."
Hormônio influencia exposição ao risco
A testosterona explica: a predominância dos homens no mercado financeiro vai além da discriminação, segundo estudo da universidade norte-americana Northwestern.
Os pesquisadores realizaram experiências com um grupo de estudantes de administração. Os alunos fizeram alguns testes hipotéticos de investimentos – e, em alguns casos, foram efetuados pagamentos em dinheiro para tornar o experimento mais real.
Após serem medidos os níveis de testosterona dos estudantes, o resultado comprovou que as mulheres e os homens com o mesmo nível do hormônio durante o experimento tiveram as mesmas preferências de risco. Mulheres que tinham mais testosterona escolheram as situações menos confortáveis quando comparadas às mulheres com níveis inferiores do hormônio.
O estudo prosseguiu após a graduação dos estudantes e constatou que aqueles que apresentaram níveis mais altos de testosterona optaram por seguir carreira na área de finanças. E colocou em xeque as discussões meramente sociais sobre o assunto, acrescentando a questão fisiológica.